A imagem de homens mascarados queimando uma bandeira do Brasil foi tirada em 2016

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Uma foto em que homens mascarados queimam uma bandeira do Brasil foi compartilhada milhares de vezes em redes sociais desde o último dia 31 de maio, como se tivesse sido tirada durante um ato pró-democracia realizado em São Paulo neste mesmo dia. A imagem foi feita, no entanto, em janeiro de 2016, em um protesto contra o aumento no preço de transportes públicos na capital paulista.

“Como pode um movimento ‘democrático’ (segundo a imprensa) queimar a bandeira do Brasil!”, dizem publicações compartilhadas mais de 4 mil vezes no Facebook (1, 2, 3, 4) desde 31 de maio, dia em que manifestantes pró e contra o presidente Jair Bolsonaro realizaram atos simultâneos na Avenida Paulista.

Convocado por torcidas organizadas de times de futebol, o protesto crítico a Bolsonaro carregava faixas a favor da democracia e contra o fascismo.

A imagem, acompanhada da mesma alegação, também circulou amplamente no Twitter (1, 2, 3) e Instagram (1, 2). “E aí @STF_oficial isso pode?? Ato pelo movimento ‘pró-democracia’ na Av Paulista hoje..”, comentou uma usuária em uma das postagens. 

Captura de tela feita em 1 de junho de 2020 mostra foto publicada no Facebook

A imagem viralizada é, no entanto, anterior ao ato realizado neste mês de maio.

Uma busca reversa pela foto mostra que ela foi publicada em 25 de janeiro de 2016 em um artigo do jornalista Reinaldo Azevedo, no site da rádio Jovem Pan.

“Manifestantes black bloc mascarados queimam bandeira do Brasil em ato do MPL [Movimento Passe Livre] em São Paulo”, diz a legenda da foto no texto, intitulado “Pingo Final: Principal investigação sobre black blocs acaba em SP sem acusar ninguém”

Captura de tela feita em 1 de junho de 2020 mostra foto publicada em 25 de janeiro de 2016 no site da Jovem Pan

A tática conhecida como “black bloc” foi amplamente utilizada no país entre 2013 e 2014 em protestos contra a corrupção, desencadeados inicialmente por um aumento no preço das passagens de ônibus.

Vestindo roupas pretas e máscaras, os black blocs ficaram conhecidos por enfrentarem violentamente as forças policiais, destruindo agências bancárias, carros e, inclusive, bandeiras do Brasil. A estratégia voltou a ser utilizada no país em 2016, após novos aumentos nas tarifas dos transportes públicos.

A Jovem Pan não credita a imagem a nenhum fotógrafo, mas uma busca em bancos de fotos de agências permitiu localizar o clique viralizado no site da European Pressphoto Agency (EPA).

A legenda da EPA detalha que a foto dos homens queimando uma bandeira do Brasil foi tirada em 21 de janeiro de 2016 pelo fotógrafo Sebastião Moreira, em um protesto contra um aumento nos preços dos transportes públicos em São Paulo. 

Captura de tela feita em 2 de junho de 2020 do banco de fotos da European Pressphoto Agency

A manifestação daquela data foi reportada por diversos outros veículos (1, 2, 3), incluindo a AFP.

O protesto de 2020

O protesto de 31 de maio foi palco de tensões entre manifestantes contra e a favor do presidente Jair Bolsonaro, terminando em embate com a polícia e uso de bombas de efeito moral.

No entanto, o AFP Checamos não localizou qualquer relato de que bandeiras tenham sido queimadas.

Uma busca no Google pelas palavras-chave “bandeira + Brasil + queimada”, limitando os resultados a conteúdos publicados a partir de 31 de maio deste ano, não levou a qualquer registro de que uma bandeira do país tenha sido incendiada durante o protesto.

O ato foi coberto em fotos (1, 2, 3) e vídeo pela AFP que, da mesma maneira, não registrou a destruição de bandeiras.

Contactado, o fotógrafo Nelson Almeida, que cobriu o protesto pela AFP, reiterou que não viu nenhuma ação do tipo durante a manifestação de 31 de maio. “Não teve nenhuma bandeira queimada”, disse.

Em resumo, a foto viralizada não mostra manifestantes queimando uma bandeira do Brasil durante o ato pró-democracia realizado no último dia 31 de maio em São Paulo. A imagem foi feita em 21 de janeiro de 2016, em uma manifestação contra um aumento nas tarifas do transporte público na mesma cidade.